margens subversivas
uma comunidade dedicada à literatura escrita por mulheres
Quadradinho, um guia de cultura no Distrito Federal. Edição de 5 de junho de 2025.
foco na escrita feminina: um modo de se rebelar
Olá, habitante do quadradinho! Hoje quem escreve aqui é a Maria Rita e a Larissa para falarmos do nosso projeto que nasceu em janeiro deste ano (ainda é um bebezinho) sem pretensão de ter sequer um nome e, seis meses depois, reúne mais de 60 pessoas para trocar, discutir e acolher a fala feminina.
Unidas pelo Sol em Escorpião, pelo mesmo psiquiatra e pela mesma analista, decidimos fazer publicamente o que já vínhamos fazendo há alguns anos apenas entre nós mesmas: debater obras literárias relacionando seus conteúdos às nossas experiências pessoais, sempre questionando as normas impostas ao feminino. Ambas somos de Brasília, crianças dos anos 80/90 crias do Cine Karim e do parque Ana Lídia, mas foi apenas em 2011 que começamos um papo que dura até hoje.
Com uma bagagem psicanalítica nas costas, levamos para fora - o que já acontecia entre nós duas durante os nossos almoços e cafés - a capacidade desmedida de esmiuçar uma obra até a exaustão. O primeiro objeto da nossa grande obsessão não foi apenas nosso, mas sim de uma geração, e é a partir daí que, incentivadas por uma grande amiga (câmbio, dona @aveeludi), finalmente nos sentimos autorizadas a falar sobre as nossas análises da obra da Elena Ferrante para outras pessoas que não os nossos maridos (inserir aplausos aqui não só pela escuta deles, mas também por ambos serem ferranters).
É daí, inclusive, que surge o nome do projeto. Mergulhadas na desmarginação de Lila e percorrendo a escrita de Lenu, a nossa ideia é justamente tirar a escrita feminina das margens e posicioná-la diante do holofote subvertendo o que vemos na literatura de sempre: o homem no centro falando de si e autorizando-se a falar da experiência da mulher sem nunca ter sentido o que é de fato estar à margem.
Além do apoio dos nossos amigos e familiares, um texto específico também agiu como um dos nossos grandes impulsionadores: o manifesto escrito por Hélène Cixous em 1976 intitulado O riso da Medusa convoca as mulheres à escrita para tentar recuperar o que nos foi negado e, portanto, exclui a experiência feminina da construção da História. A ideia de Cixous é, acima de tudo, uma tentativa de produzir efeitos históricos numa sociedade extremamente falocêntrica que sabota não só os nossos pensamentos, mas também os nossos corpos.
“Tudo acontece rapidamente quando estamos em meio à magia da linguagem infantil: ‘eu serei um pássaro’’ digo logo sou. Eficácia mágica do idioma: a ficção se torna realidade. ‘Agora as mulheres vão escrever’, e o resultado: elas escrevem. E o futuro está no presente.”
Hélène Cixous em O riso da Medusa.
A nossa missão é ampliar as discussões das obras em debate, acreditando nas infinitas possibilidades da leitura coletiva e fugindo de qualquer margem cuja finalidade seja delimitar uma verdade única. Para nós, margens só subversivas mesmo! Afinal, somos defensoras da loucura saudável.
“O que parece falta de sentido - é o sentido.”
Clarice Lispector em A Paixão segundo G.H.
Com as bençãos de Lila e Lenu, iniciamos o primeiro semestre do nosso clube do livro, cuja proposta é a leitura da escrita feminina de autoficção. Fomos recebidas por outras mulheres subversivas (e alguns homens!), que enriquecem as discussões com suas próprias leituras e experiências de vida.
A escolha das obras do primeiro ciclo do clube foi baseada em autoras com as quais temos mais familiaridade, no entanto, a ideia para os próximos é incluir as demandas dos participantes para que a troca seja cada vez mais horizontal. A nossa ideia não é criar um sistema hierárquico e sim de aprendizagem mútua.
O primeiro lugar que pudemos chamar de casa foi a Livraria Platô que, sem titubear, apoiou a nossa proposta e, desde então, segue não só nos acolhendo, mas também nos dando liberdade para tocarmos o projeto com fluidez e espontaneidade.
Além de nós duas, há também uma terceira estrutura que sustenta essa ideia e que nos permite existirmos on-line e transformar nossas ideias em produtos. Bianca, carinhosamente apelidada de Marlene Mattos por sua rigidez em relação a prazos e às nossas produções escritas, é a cabeça pensante por trás de tudo que tem a ver com marketing e outras coisas que não sabemos nomear, e que nos escapa por conta da nossa idade avançada nesse mundo que parece girar cada vez mais rápido (Amém, Gen Z!).
É dela todo o design e toda a ideia da nossa identidade visual que deixa de ser unicamente online e se traduz também em cadernos, ecobags, lápis, canetas e otras cosas más (inclusive, todos os nossos produtos estão à venda lá na Platô, corre lá!). Com o dinheiro arrecadado por meio das vendas e das inscrições do clube de leitura, conseguimos dar continuidade às nossas ideias cada vez mais mirabolantes sem enlouquecermos, afinal, estamos inseridos nessa sociedade onde temos que pagar apenas para existir.
“Bastava, reza a lenda, que Medusa mostrasse todas as suas línguas para que os homens saíssem correndo: eles confundiam essas línguas com serpentes. Precisava vê-los fugir, tapando os ouvidos, com as pernas e também outras partes do corpo bambas, ofegantes já sentindo a mordida. Eu até achava essa cena engraçada. Porém, mais tarde, o Homem voltava de costas e, de um golpe forte, com suas espada ereta, sem nem mesmo olhar o que fazia, cortava a cabeça dessa infeliz.”
De mãos dadas com Cixous, tentamos fazer o que está ao nosso alcance para que essas línguas sejam escutadas e que tenham espaço e reconhecimento suficiente a ponto de um dia não precisarmos de projetos como esse. A Medusa que nos habita saúda a Medusa que habita vocês! Sigamos juntas <3
Leiam Hélène Cixous! (com o mesmo ritmo e tom de voz daquela propaganda da Garoto que mandava a gente comprar batom)
Acompanhe a gente:
instagram: @margenssubversivas
substack: margens subversivas
Próximos encontros
🔹27 de Junho: Escute as feras, da escritora francesa Nastassja Martin
🔹25 de Julho: A ridícula ideia de nunca mais te ver, da escritora espanhola Rosa Montero
Local: Livraria Platô - 405 sul
Horário: 16h30 às 18h30
Inscrições: margenssubversivas@gmail.com
Contribuição de R$25 por encontro
O primeiro ciclo está chegando ao fim, mas logo logo anunciaremos a segunda edição!
Além da leitura - outras mulheres subversivas para ficar de olho
Para degustar entre um capítulo e outro:
Doces da @lacarmelapaodemel. O red velvet é um acontecimento, o pão de mel vai te fazer se perguntar se o que você comia antes tinha o mesmo nome e o honeycomb é amor à primeira mordida. Nossos preferidos: Larissa - bolo de mousse de pistache com frutas vermelhas, Maria Rita - honeycomb de gergelim.
Por encomenda ou no Gomes e Bebes. CLN 307 bloco A - Asa Norte.
Para ler com estilo:
Roupas da @queromelancia. Peças made in Bsb feitas pela nossa amiga subversiva Thaís Madureira. Para usar no trabalho, no Cine Brasília, na Água Mineral, no Beirute ou no clube do livro. Nossos preferidos: Larissa - calças pantalonas, Maria Rita - colete de alfaiataria.
A Quero Melancia fica na SCRN 714/715 bloco A loja 35 - Asa Norte
Para carregar na bolsa, junto com o livro:
Chocolate @labarrchocolate. Depois de um curso de degustação de chocolates com a Adriana, nossa vida nunca mais foi a mesma. A LaBarr tem chocolates premiadíssimos mundo afora e feitos com cacau brasileiro produzido de maneira sustentável. Nossos preferidos: Larissa - chocolate branco com matchá, Maria Rita: 70% cacau com nibs e flor de sal.
A LaBarr (loja e café) fica na SCRN 710/711 bloco H loja 35 - Asa Norte
Porque o café que nos mantém acordadas precisa ter mais que cafeína:
Café do @ahacafes. Para encomendar, levar para casa ou degustar no local, acompanhado de um pão de queijo recheado. Bebel é a musa do café!
O Aha! fica na CLN 111 bloco A - Asa Norte
Menção honrosa (ou "nem todo homem"):
Lucas Hamu (@lucashamu), antes conhecido como "Lucas da Objeto” (olá, antigos frequentadores da Objeto Encontrado!). Lucas dá aulas de piano, organiza recitais na própria casa e tem as melhores dicas de músicas e playlists. É ele o responsável pelas playlists das leituras do margens!
Mais dicas de clubes de leitura com foco em escrita feminina:
Leia Mulheres BSB (@leiamulheresbsb)
Clube de Leitura da crítica literária Ludimila Moreira (@aveeludi)
Próximos Eventos
🔹Feira do Livro de Brasília
🗓️ 5 a 14 de junho de 2025
🌱 Edição Especial | Meio Ambiente e Sustentabilidade
📍Complexo Cultural da República
📖 Ler o mundo para mudar o futuro!
A programação completa pode ser vista no instagram @feiradolivrobrasilia
🔹Minicurso Autopublicação com Ricardo Rodrigues @experimentosimpressos
Dia 06 de junho, das 14h às 17h
Link para Inscrição: https://abrir.link/zOoYm (ainda há vagas!)
Programação: Panorama da autopublicação e do mercado independente; Exemplos de livros-objeto, zines e encadernações criativas; Técnicas de encadernação, colagem, carimbo e bordado em papel; Mão na massa: criação de um zine autoral; Dicas para produção em pequena escala e venda sob demanda; Espaço para dúvidas e networking com quem faz e vive do livro independente.
Local do evento: Faculdade de Ciência da Informação-FCI. Prédio Anexo da Biblioteca Central (BCE). UNB - Campus Universitário Darcy Ribeiro - Asa Norte, Brasília, DF
🔹Lançamento do livro“Nem sabe escrever Brazsília”, de Nicolas Behr, Cacá Soares e Marco Miranda
E se fosse possível conhecer um pouco mais da capital federal brincando de colorir? Foi a partir desta premissa que o escritor Nicolas Behr e o ilustrador Cacá Soares, junto ao editor Marco Miranda, produziram a obra inédita "Nem sabe escrever Brazsilia". O livro apresenta Brasília por meio de poemas e desenhos interativos, sob a perspectiva da visão de uma criança.
Serviço: 07 de junho, sábado, às 9h. Biblioteca Pública de Brasília (EQS 312/313 - Asa Sul). Acesso gratuito ao espaço. Aberto ao público de todas as idades. Vendas de livros a preços populares.
🔹"O traço passo a passo": oficina gratuita de ilustração
O projeto conta ainda com a realização da oficina de ilustração "O traço passo a passo" em bibliotecas públicas das mesmas Regiões Administrativas, de forma gratuita, para que a comunidade aprenda um novo modo de ver e representar sua cidade por meio da arte de rabiscar. Qualquer pessoa pode participar, e elas acontecem nas seguintes datas:
13 de junho, às 9h - Biblioteca Escolar Comunitária Monteiro Lobato em Planaltina
14 de junho, às 9h - Biblioteca Pública Carlos Drummond de Andrade em Ceilândia
16 de junho, às 10h - Biblioteca Braille “Dorina Nowill” em Taguatinga
17 de junho, às 9h - Biblioteca Escolar Comunitária Espaço Rui Barbosa em Sobradinho
Para inscrições nas oficinas, entre em contato pelo e-mail: vinte4cultural@gmail.com
Release completo aqui.
🔹Livraria Platô: Oficina Arte e café com a literatura
Sábado, 7 de junho, das 10h às 13h, a Platô realizará a oficina infantil « Arte e café com a literatura », piquenique pela perspectiva do livro Natureza bicho - bicho natureza, de Carmem Lúcia Costa (textos), Marina Aranha (ilustrações) e Neisse Montadon (música). Local: CLS 405, Bl. A, loja 12, Asa Sul.
🔹Sempre um Papo: com Ailton Krenak
Neste mês, o autor convidado para o projeto cultural Sempre Um Papo é Aílton Krenak, líder indígena e membro da Academia Brasileira de Letras. Ele baterá um papo com o jornalista Matheus Leitão, e falará da sua trajetória profissional.
🗓️ 11 de junho
🕛 19h30.
📍 Caixa Cultural. 🔗 Mais informações.
🔹 Clube do livro da Circulares
Livro A encomenda, de Margarida García Robayo. Tradução de Silvia Massimini Felix.
Mediação: Mariana Moura. Data: 11 de junho, às 19h30.
Inscreva-se gratuitamente pelo email: circulares.livraria@gmail.com e indique em qual data quer participar. Lembrando que as vagas são limitadas!
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Próxima edição: Brasília, um bom lugar para ler um livro!
Canais
🔹Quer nos indicar um evento ou um local? Formulário de indicações
🔹Entre em nosso canal no Telegram.
Agradecimento especial
Agradecemos a Larissa Coutinho e Maria Rita Lobo pela participação ilustre nesta edição da Quadradinho que chega a você! Conheça o trabalho do “margens subversivas”, é inspirador! Esperamos vocês na Platô Livraria!
🟦 Quadradinho: um guia de cultura no Distrito Federal
Texto principal: Larissa Coutinho e Maria Rita Lobo
Com colaboração da equipe: Deborah Fortuna, Karine Canal e Priscila Calado
Edição de 5 de junho de 2025.



